Os 13 Porquês

Imagem de divulgação da série usada pela produtora

A série “13 Reasons Why” (Os 13 Porquês), é uma produção da Netflix lançada em 31 de março de 2017, baseada na obra literária de Jay Asher. Em sua primeira semana no ar tornou-se uma das obras mais populares na plataforma. A série aborda a adolescência e a juventude em contextos que envolvem bullying, conflitos emocionais, consumo de substâncias psicoativas, violência, sexo não consensual e suicídio.

A produção confere um destaque significativo a prática do autocídio, e isso culminou em um número expressivo de debates sobre o tema, pois trata-se de um assunto tabu em decorrência do que se chama Efeito Werther¹, contudo o posicionamento do Conselho Federal de Psicologia – CFP sobre o efeito é:

“O que ocorre, não é um contágio, mas um reconhecimento das pessoas na expressão daquele sentimento … reconhecimento no sofrimento que levou alguém à morte, mas não um contágio propriamente dito”.  Suicídio e os desafios para a Psicologia – CFP, p.92.

Sobre as acaloradas discussões é possível dizer que em síntese a maioria delas se dividem em dois polos, um que avalia a série como um algo potencialmente perigoso e outro que reverencia por abordar o tema, chegando ao entendimento que esta desempenha um papel social. Independente do polo escolhido uma coisa é fato, a série aborda o suicídio de forma romântica e a princípio de maneira que pode ser considerada irresponsável, ao trazer à tona um assunto de extrema complexidade retratando-o de forma visceral, sem preocupar-se com as pessoas que pudessem possivelmente se identificar com o sofrimento de Hannah  Baker (personagem que comete autocídio).

Ressalta-se que na primeira semana que a série esteve no ar houveram mais de 3,5 milhões de impressões nas redes virtuais fazendo referência a ela. Semanas depois a realidade era outra, ao final de cada episódio eles oferecem um “Serviço de apoio emocional” através do endereço do site www.13reasonswhy.info que possibilita que se “Fale Com Alguém” de acordo com o país escolhido pelo internauta. Os materiais comuns a todas as nações consistem em vídeos com os seguintes títulos: As muitas formas de bullying, Como identificar sinais de depressão, Entendendo o consentimento, Falando com alguém sobre o uso de álcool e drogas, Levando sinais de possíveis danos a sério e Falando com seu adolescente sobre 13 reasons why. Os vídeos possuem uma duração média de 1 minuto e 24 segundos, tempo ínfimo para abordar com o mínimo de eficácia temas tão complexos junto a pessoas que possam estar vivenciando algum tipo de identificação com as questões abordadas.

Seguindo a navegação pelo site, ao escolher o Brasil como país a página oferece o link denominado “Recursos” que dão acesso a três outros links, um leva a um guia  de discussão elaborado pela Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, que contém informações destinadas a ajudar o público a entender as várias questões abordadas pela trama, assim como conduzir diálogos construtivos que possam ajudar a lidar com essas demandas. Outro link é o SaferNet que dá acesso ao Helpline, um canal que garante atendimento psicológico e respeito ao anonimato. O terceiro link é o do Centro de Valorização da Vida (que até a elaboração desse texto, redirecionava para uma página que não carregava).

Independente das múltiplas polêmicas que a série tenha levantando e a forma como aborda os temas a que se propõe, ela retrata o universo de uma parcela significativa dos adolescentes atuais, as dificuldades dos pais em supervisionar os filhos, o distanciamento entre eles, pais com funcionamento adoecido, a existência de tribos nas escolas, o fácil acesso dos jovens a substâncias psicoativas, a sexualidade na adolescência, o sexo não consensual, as oscilações de humor, o adoecimento psíquico e os conflitos emocionais. Isso tudo precisa da atenção de toda a sociedade, posto que, a persistência desses conflitos na fase adulta podem contribuir para a formação de uma sociedade ainda mais adoecida.

Contudo, desejo dar maior ênfase a outras questões trazidas pela obra, entre elas a romantização do sofrimento que pode ser claramente observado no funcionamento do personagem de Clay Jensen, que na verdade está apresentando traços de adoecimento psíquico em estágio grave. Outro ponto é a glamourização do suicídio, que é usado não somente para por fim ao sofrimento de Hannah como para sua vingança, através das fitas que expõe e culpabilizam pessoas que algum momento lhe causaram sofrimento, além do que, a obra em sua primeira e segunda temporada giram em torno do óbito de seu autocídio. De acordo com estudos da psicologia do desenvolvimento, a adolescência tende a ser uma fase marcado por conflitos, e oferecer para pessoas que vivenciam uma fase com alto potencial conflituoso um material desta natureza pode sim potencializar seus sofrimentos.

Nos tempos atuais é impossível controlar de maneira inteiramente eficaz o que um adolescente ou jovem pode ou não assistir. Então faz-se necessário investir na comunicação com esse público, transformando-a em uma chave de acesso para o universo no qual ele está inserido, e isso não possui receita, é uma construção única dentro de cada contexto. Outro aspecto que necessita de investimento é a observação, que permite que os pais e educadores possam detectar possíveis mudanças no padrão de comportamento dos jovens, e caso necessário possam oferecer ajuda ou encaminhá-los a profissionais especializados. Um exemplo claro de mudança no padrão de comportamento apresentado na obra é o do personagem Alex Standall, que termina a primeira temporada atentando contra a própria vida.

Cada fase da vida de uma pessoa requer determinados cuidados, seja por parte dos profissionais que o assistem ou dos pais. Quando se é médico aprende-se que o tratamento dispensado a um bebê com gripe não é o mesmo para um adulto e nem a um idoso, a divisão no olhar lançado para cada fase do indivíduo faz parte de muitas áreas de atuação profissional, o mesmo deve acontecer no ambiente familiar. Quando alguém passa a desempenhar o papel de pai/mãe de um bebê faz-se necessária a reorganização da rotina e do ambiente para atender as necessidades do recém chegado. O mesmo acontece quando os filhos ingressam na escola, tem o lanche, o material, a necessidade de um momento e um espaço para atividades escolares no ambiente domiciliar, a supervisão da higiene pessoal.

Quando criança somos ensinados a falar, andar e identificar coisas e cores. Na adolescência os cuidados precisam ir além disso, e se adaptarem a esta fase da vida. Substituindo a linguagem infantil e lúdica, por uma clara e realista, a bronca muitas vezes pode dar lugar ao diálogo aberto e assertivo (não confundam com permissivo), no intuito de ensinar os adolescentes a desenvolverem ferramentas para identificar e posteriormente lidar com suas emoções durante esse período de transição do desenvolvimento humano, marcado pela ampliação do reportório social e emocional desse indivíduo.


¹ Efeito Werther: ideia de contagio do suicídio por conta do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther de Johann Wolfgag von Goethe, posto que, à época, houveram diversos suicídios que foram relacionados com a leitura do livro, culminando na sua proibição e retirada de circulação da obra em alguns países.

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